quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ele merecia mais!


Uma falta de respeito. Essa é a expressão mais “suave” que pode ser utilizada para definir a despedida de Ronaldo com a camisa da Seleção Brasileira. Apelidado como Fenômeno, o atacante encerrou a carreira de maneira melancólica, pífia. Não pela qualidade técnica ou forma física, mas sim pela “homenagem” proporcionada pela CBF.

No último domingo, na despedida de Petkovic, cerca de 40 mil pessoas foram ao Engenhão e deram um verdadeiro espetáculo. A torcida do Fla demonstrou paixão e respeito, com bandeiras de agradecimento, gritos incessantes e um mosaico fantástico. Se levarmos em consideração que Ronaldo, se comparado ao Pet, foi 1000 vezes mais importante para o futebol mundial, é inevitável que apareçam alguns questionamentos.

Como explicar a presença de apenas 30 mil pessoas no Pacaembu? Como explicar o público frio, típico de vôlei, e sem interesse em ir ao estádio? Como explicar as tentativas frustradas dos narradores em encher de emoção um momento que foi simplesmente frígido?

A resposta está nas atitudes tomadas pela CBF, principalmente nos últimos anos. Não é de hoje que a entidade se esforça (e muito) para destruir o carinho do povo com a seleção. Levar o time para jogar apenas fora do país fez com que ninguém mais torcesse pela camisa canarinho com o orgulho de antigamente. Colocar o esporte em segundo plano e se preocupar apenas com dinheiro são apenas alguns dos motivos que afastaram os torcedores da equipe. A seleção do Brasil está longe de ser brasileira.

Definitivamente, a razão para a falta de emoção na despedida não está no Ronaldo, na baixa temperatura, na indisposição histórica do paulistano com a seleção ou no valor dos ingressos. Certamente, se a despedida fosse pelo Corinthians, a festa seria muito maior, com bilhetes esgotados há meses, independente do preço. O problema está na camisa canarinho e na falta de interesse do público em ver algo que deixou de fazer parte do nosso cotidiano futebolístico. Um símbolo que não representa nada para o seu povo, quase europeu.

A carreira de Ronaldo, o maior artilheiro da história das Copas do Mundo, deveria ter sido mais respeitada na noite de ontem. Um ídolo mundial merecia ter se despedido com uma festa infinitamente mais bonita, sem que nenhum pagode atravessase o momento do discurso ou coisas do tipo. Parabéns CBF!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Quando a genialidade calçava luvas


Posicionamento político, força midiática e polêmicas são alguns dos principais pontos abordados em Facing Ali (2009). Dirigido por Pete McCormack, o documentário conta, cronologicamente, a vida e as principais lutas de Muhammad Ali, narradas apenas por rivais. Além de abordar a importância do três vezes campeão mundial dos pesos pesados dentro e fora dos ringues.

No filme, nomes como Joe Frazier, George Foreman e Leon Spinks falam sobre a forma como Cassius Clay, como era conhecido antes de se converter ao islamismo, colaborou na batalha contra a discriminação racial na década de 60, quando a população negra dos Estados Unidos intensificou a luta pelo fim da segregação.

Campeão mundial aos 22 anos, o boxeador não era precisamente um líder como o seu “tutor” Malcolm X e em diversas ocasiões foi antiético, mas sabia exatamente como utilizar o alcance da imprensa para expor suas opiniões. As declarações fortes e cheias de orgulho racial fizeram com que o lutador se tornasse uma espécie porta-voz da comunidade negra, até então carente de espaço para exigir direitos iguais.

A forma como Ali rejeitou se juntar ao exército americano na Guerra do Vietnã, o que levou o ex-boxeador a ficar três anos suspenso, assim como a mobilização popular que a decisão causou na época, demonstram como é importante que ídolos do esporte se posicionem politicamente. Postura bem diferente da adotada pela maioria dos atletas contemporâneos.

Atualmente, principalmente no Brasil, grande parte dos esportistas ainda foge de questões políticas e sociais, seja por medo de alguma repercussão negativa na carreira ou simples falta de conhecimento. Omissão nociva já que o esporte possui forte influência social. Assim, se os atletas soubessem explorar o espaço que possuem na mídia, poderiam colaborar para a construção de um país melhor.

O filme também aborda como o ex-boxeador conseguia aliar boxe e marketing. Polêmico, ele sempre provocava seus adversários antes dos combates. Essas atitudes promoviam o evento, geravam comentários na imprensa e, consequentemente, maiores bilheterias. De fato, Muhammad Ali foi o primeiro atleta a transformar esporte em espetáculo, aspecto que hoje é característico nos Estados Unidos.

O documentário ainda conta um pouco da história de cada lutador que participa do longa, todos marcados por uma infância pobre e que encontraram no boxe o caminho para melhorar as condições de vida ou largar o mundo do crime. Dessa forma, enfrentar Ali representava muito mais do que o título mundial, era a vitrine perfeita para conquistar novos contratos e ganhar mais dinheiro.

Através das declarações de cada lutador, Facing Ali mostra como o boxe foi importante na consolidação do esporte como ferramenta de inclusão social. Uma modalidade símbolo das classes menos favorecidas, talvez pelos riscos ou baixo custo para praticar, e que graças ao talento de um gênio chegou a outro nível. Exemplo que levou diversos jovens pobres a calçarem as luvas e partirem em busca do estrelato.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Cobertura trágica


O massacre que aconteceu na manhã desta quinta-feira, em Realengo (RJ), foi uma das piores tragédias que tive o desprazer de acompanhar. É revoltante saber que um sujeito fortemente armado invadiu uma escola e matou 11 crianças. Nada justifica uma atitude monstruosa e inumana como essa. É algo horrível.

Assim, a atrocidade cometida por Wellington Menezes de Oliveira, que deveria causar revolta o suficiente apenas pela maneira como aconteceu, me deixou ainda mais indignado ao ver a forma como foi tratada pela imprensa brasileira.

Poucos minutos após receber a notícia, notei o seguinte comentário: “Violência importada. Have you seen something like that on the movies?”. Achei o comentário, vindo de um companheiro de profissão, extremamente raso e preguiçoso. Colocar a culpa do que aconteceu nos Estados Unidos ou em qualquer outro país é simplesmente um absurdo, algo que não deveria ser cogitado em hipótese alguma por um jornalista. É um pensamento colonizado, treinado apenas para achar um culpado para tudo, sem nenhuma análise aprofundada sobre como a sociedade brasileira e suas dificuldades podem influenciar na criação de assassinos.

Não sou nenhum especialista, mas penso que a violência, entre outras coisas, é resultado de diversos conflitos sociais. Acreditar que os filmes americanos são os principais responsáveis pela morte de 11 crianças na Zona Oeste do Rio de Janeiro é lamentável. Coisa de quem não consegue pensar sem uma coleira. Daqui a pouco, é provável que essa mesma pessoa coloque a culpa em Portugal por ter nos colonizado de forma violenta.

Outro ponto que me deixou profundamente irritado foi o show de sensacionalismo barato protagonizado por Reinaldo Gottino. Era visível a luta do apresentador do SP Record para ser mais chocante do que o fato em si. Uma abordagem patética, desrespeitosa e altamente despreparada. A guerra pela audiência deveria ficar em segundo plano na cobertura de tragédias como a que aconteceu em Realengo.

Será que nenhuma dessas pessoas, em momento algum, questionou as condições precárias da segurança pública brasileira?

Como um homem armado entra em uma escola sem nenhuma resistência e mata 11 crianças inocentes?

É tão mais simples colocar a culpa nos EUA?

É válido desrespeitar o momento de luto dos pais das vítimas apenas para conseguir audiência? E quando vamos encarar a realidade?

E quando vamos votar direito e exigir mudanças concretas dos nossos governantes ao invés de colocar palhaços no poder?

Nosso jornalismo é despreparado...

Feliz dia do jornalista...

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Pretérito perfeito


Cada dia mais “colorido” e “impotente”, o rock atravessa por um momento cheio de incertezas. Sem nenhuma revelação importante no cenário, talvez a última seja o Avenged Sevenfold, restou torcer para que alguma banda já consagrada pudesse apresentar algo diferente. E, graças a Deus, foi exatamente o que aconteceu. Recentemente, The Strokes e Foo Fighters mostraram que a saída para a falta de inovação no estilo pode estar no passado.

Sem lançar nenhum álbum de estúdio desde First Impressions of Earth (2006), o Strokes não decepcionou com o recém-lançado Angles (2011). O grupo norte-americano, que já flertou com influências dos anos 60 e 70, decidiu passear pela década de 80 e o saldo foi positivo. Faixas como “Machu Picchu”, “Two Kinds of Happiness” e “Games” são recheadas com sintetizadores e batidas eletrônicas interessantes, que lembram o que era exaustivamente explorado por bandas como Depeche Mode e New Order. Além de combinarem com o estilo de vocal imposto por Julian Casablancas.

Quem também apostou em algo mais “retrô” foi o Foo Fighters. Sob a promessa de que Wasting Light (2011) seria o registro mais pesado da carreira, o quinteto abriu mão da tecnologia e decidiu gravar o álbum inteiro em lo-fi para garantir fidelidade ao estilo rock de garagem. Músicas como “Bridge Burning”, “Rope” e, principalmente, “White Limo” apresentam riffs fortes, imponentes e que valorizam os graves.

Produzido por Butch Vig, responsável pelo clássico Nevermind, do Nirvana, o disco não cumpre à risca a definição de peso em todas as faixas e ainda trás influências melódicas, que dominaram os últimos trabalhos. Mas a ideia certamente deve ser reverenciada.

“Ousados” e extremamente eficientes, os novos álbuns de Strokes e Foo Fighters surgem como um desfibrilador para o rock, que está cada vez mais decadente. São a prova de que é possível inovar dentro do seu próprio estilo, sem forçar nenhuma mudança drástica, algo que ficou evidente em álbuns como A Thousand Suns (2010), do Linkin Park, e Audio Secrecy (2010), do Stone Sour.

Acredito que explorar influências do passado pode garantir o futuro de um estilo musical, até certo ponto, fechado e que dificilmente aceita grandes mudanças.

segunda-feira, 28 de março de 2011

M1TO


O dia 27 de março de 2011 ficará para sempre na memória do futebol mundial. Definitivamente, o 100º gol de Rogério Ceni coloca o goleiro são-paulino em outro patamar, o de mito.

Exagero? De forma alguma! Idolatria por parte da torcida tricolor, destaque na imprensa e inveja dos rivais mais “fanáticos”, apenas uma lenda pode gerar tantas emoções e sensações distintas entre os amantes do esporte. Até quem odeia futebol comentou o feito extraordinário.

A forma como o 100º gol foi marcado também merece destaque, em um clássico e contra aquele que, atualmente, é considerado o maior rival. Até o dia 27 de março de 2011, o Corinthians não havia sofrido nenhum gol de falta marcado por Rogério Ceni. A “invencibilidade” corintiana desabou junto com um tabu de 11 jogos sem vitória do São Paulo.

Passei a segunda-feira inteira na tentativa de lembrar qual foi a emoção que senti ao ver a bola entrar no ângulo direito do goleiro Júlio César, mas falhei. Recordo apenas de ter pulado como uma criança no sofá, algo inexplicável, uma verdadeira explosão de alegria. Um momento único e histórico aconteceu bem diante dos meus olhos.

Com o passar dos anos, a carreira do capitão do São Paulo será motivo de longas e polêmicas discussões, seja nas mesas redondas especializadas ou nos churrascos de domingo. Certamente, a história de Ceni será contada de diversas formas, sempre de acordo com a cultura futebolística de cada torcedor, independente do clube preferido.

As opiniões polêmicas, a forma de se comportar diante da imprensa, o profissionalismo incontestável e a identificação com o clube, tudo isso colabora para que o nome de Rogério Ceni fique marcado para sempre como um dos maiores atletas do futebol mundial. Afinal, um mito não é construído apenas pelas atuações dentro de campo ou marcas inatingíveis, mas também pela representatividade alcançada fora das quatro linhas.

terça-feira, 22 de março de 2011

Lázaro, Obama e eu


Na última semana, o ator Lázaro Ramos deu uma declaração que me deixou, entre outras coisas, surpreso. De acordo com o galã da novela Insensato Coração, a visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, causaria forte impacto na comunidade negra brasileira.

“Acho que isso afeta a nossa autoestima de uma maneira incalculável. Você não acha que uma criança negra que vê um presidente como o Obama não vai se sentir mais possível? Ver um referencial positivo sempre estimula a gente a querer mais, a se sentir mais possível. Eu falo de criança porque geralmente é onde referências são importantes, mas para mim ele também é uma superreferência”, disse Ramos durante uma entrevista à BBC Brasil.

O ator também destacou a importância da família Obama. “E quando falo desse lado simbólico do Obama, falo também da família dele. Não consigo excluir a Michelle e as filhas como um referencial. Eu gostaria de ser aquela família, sabe? Para nós, que somos de um país com população de maioria negra, é muito importante receber essa família. Um cara que cuida tão bem da sua família, uma mulher que está ali parceira de seu marido, e também com um discurso bacana, com projetos interessantes. Isso me toca como brasileiro”.

Por questões explicitamente empíricas, discordo totalmente das ideias de Lázaro. Beira a estupidez afirmar que a visita do presidente dos Estados Unidos pode causar um forte impacto na comunidade negra brasileira. Um positivismo exacerbado e que não condiz com a realidade.

Como negro e cidadão brasileiro, o ator global deveria saber que não é uma visita de dois dias, com passagem "expressa" por uma favela, que vai estimular alguém. Muito menos um discurso de 23 minutos, cheio de diplomacia e intenções. Já fui alvo de racismo e, infelizmente, até hoje sofro com problemas de autoestima. Assim, garanto que a visita de Obama ao país não muda absolutamente nada na minha vida e também não faz com que eu me sinta mais capaz.

A representatividade e carisma de Obama são incontestáveis, da mesma forma como a estratégia utilizada por ele para atingir a presidência, mas não aumenta a capacidade de ninguém. Apenas dá um belo tapa na cara da sociedade brasileira. Mostra que o povo norte-americano é bem mais evoluído mentalmente do que o nosso.

Enquanto eles conseguem superar qualquer preconceito em busca de um país melhor, pois elegeram, mesmo que não tenha sido por unanimidade, um presidente negro, a sociedade canarinho traveste o seu racismo atrás do que chamamos de “politicamente correto” ou com “cotas”. Nos EUA (que também é um país com problemas raciais), não importa a cor da sua pele, mas sim a sua capacidade. A questão aqui vai além da autoestima.

A sociedade negra brasileira necessita de ações diárias dos nossos governantes e da população em geral contra o preconceito. Não precisamos de exemplos externos, mas sim de uma profunda reflexão e mudança interna. Não existe melhor espelho do que o de casa.

Ontem, dia 21 de março, foi o Dia Mundial Contra a Discriminação Racial. Você sabia? Qual é a sua atitude?

* Não questiono a importância do líder Barack Obama, mas não acredito que, em apenas dois dias, ele possa derrotar o inimigo que enfrento desde o dia em que nasci.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Recordações fabulosas


O retorno de Luis Fabiano ao São Paulo, sem dúvida alguma, foi a principal notícia do esporte brasileiro na última semana. Um investimento ousado da diretoria tricolor, que é conhecida, desde o fracasso do meia Ricardinho em 2003, por dificilmente gastar grandes quantias em contratações.

Certamente, todos os veículos da mídia esportiva já abordaram os mais variados aspectos do negócio. Assim, prefiro falar sobre a representatividade do atacante na minha, ainda, curta história como torcedor do Tricolor do Morumbi.

O Fabuloso esteve presente em dois momentos extremamente marcantes na minha vida como são-paulino. Curiosamente, ambos aconteceram na Libertadores de 2004. Após diversos anos longe da competição, o São Paulo finalmente voltava a disputar o campeonato mais cobiçado da América do Sul.

Depois de realizar uma primeira fase segura, o tricolor encontrou uma dificuldade tremenda para passar pelo Rosário Central (ARG) nas oitavas-de-final. Após ser derrotado no primeiro jogo, fora de casa, por 1 a 0, o São Paulo precisava vencer por dois gols de diferença. Luis Fabiano teve a chance de colocar o tricolor em vantagem, mas desperdiçou a cobrança de penalidade máxima. Por fim, o time comandado pelo técnico Cuca consegui vencer por 2 a 1 (dois gols de Grafite) e levou a decisão para os pênaltis.

Naquela fria noite de maio, o São Paulo quase foi eliminado, mas a estrela de Rogério Ceni brilhou ao defender a cobrança do também goleiro Gaona e fez do Morumbi uma alegria só. Aquele foi o jogo mais emocionante que já presenciei em um estádio de futebol. Era possível ver a emoção estampada no rosto de cada torcedor. Muitos choraram e a adrenalina não permitiu que eu dormisse cedo.

A segunda lembrança marcante é da semifinal daquela mesma Libertadores. Após empatar por 0 a 0, no Morumbi, o tricolor foi derrotado por 2 a 1, fora de casa, e se despediu da competição continental. Dormir foi uma tarefa complicada. Aquela noite marcou a última vez que chorei como torcedor são-paulino.

Luis Fabiano, até o momento, é o melhor atacante que eu já acompanhei com a camisa do meu clube. Pela raça, pelos belos gols, pela dedicação e, principalmente, por essas duas lembranças. Chegou a hora de escrever um novo capítulo dessa história.